Só mais um cigarro, por favor.

Você se vê enfiado embaixo de cobertores, num quarto escuro, com uma única fonte de luz, e sua melhor companhia são seus pensamentos autodestrutivos. O celular ao lado no modo avião, porque estar só e oco é muito melhor do que estar acompanhado de gente vazia.
Do outro lado, há um caneca de matte e alguns cigarros. Tudo o que você, tecnicamente, precisa ao seu alcance.
O silêncio é tão mórbido que mesmo estando no terceiro andar, o som do relógio da cozinha ainda é audível e este som assemelha-se ao som de tiros, ecoando em seu cérebro e fazendo a habitual cefaleia a dar o ar da graça. Você respira fundo uma, duas, três vezes antes de dar mais um trago. Cigarro de cravo, o seu favorito. A fumaça e o cheiro se misturam à escuridão e o espaço antes vazio, se torna sufocante.
(Foto: tumblr)

Nos últimos meses esse tem sido seu estilo de vida. Uma vida baseada em cigarros, chá e isolamento. Não por gostar, mas por ser necessário.
Sentir-se avulso e estranho em seu próprio universo. Vivenciar a perda todos os dias.  Lidar com a falta de esperança, a angústia, o tormento, a dúvida e todos os outras sensações semelhantes.
A cama lhe parece um refúgio e, talvez, de fato seja. A verdade é que mesmo o abraço da sua mãe lhe transmite tanta segurança quando estar ali, deitado, inerte. Sair dela se torna mais difícil em cada amanhecer, mas você sabe que é necessário e não quer demonstrar ao mundo o quão destruído estás, eles não precisam saber disso.
Na televisão, um desses filmes de romance qualquer, do tipo que faz qualquer mulher chorar. Do tipo que te deixa ainda mais sem paciência. Do tipo que te faz rir, pois como homem, você sabe que nenhum homem age daquela maneira.
Devaneios.
Imerso em pensamentos.
Variações de estado lucido.
Um dia você estava bem, e no outro, embriago pelo estrago.
Não há nada pior do que perceber que dia após dia você se perde mais de si mesmo. Nem mesmo estar afundando-se na areia movediça seria uma analogia equivalente para descrever tamanha dor.

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