E assim se fez. Ou pelo menos, deveria ser feito.

Com a cabeça inclina em direção à janela e o sol no meu rosto, fecho os olhos. Sinto aquele reflexo laranja atravessar a pálpebra e me mantenho inerte, para todos os efeitos, estou dormindo, não me perturbem. Por favor! Os fones de ouvido estão tocando uma das músicas que mais tenho ouvido, de uma maneira estranha ela é capaz de acalmar meu ser físico e me conectar ao ser pensante.
Ah, o ser pensante.. Sempre ele. Mil reflexões agora se perdem em sua profundeza. Pensamentos obscuros, alguns estapafúrdios, outros acolhedores, uns são tanto quanto reveladores, mas a maioria.. A maioria são memórias.  
Sabe quando as lembranças são tão reais e você tem a sensação de estar revivendo cada uma delas? Quando as memórias são tão fortes e presentes que você chega a se perguntar se aquilo foi real ou se apenas idealizações/desejos/expectativas? Foi exatamente assim que me senti. Eu não conseguia distinguir a psicose da neurose, meu mundo estava girando numa órbita diferente, numa sincronia diferente. Não havia mais ninguém ali além de mim e de meu eu.
Aperto os olhos ainda mais forte, a luz solar parece ter ficado mais intensa. Ela aparenta estar ritmada aos meus pensamentos, quanto mais as memórias que eu tanto penei para que nunca viessem à tona se aproximavam, mais forte a luz ficava. 
Imagine uma canoa vagando por entre as pedras de um lago totalmente furioso. Eu era a canoa, totalmente sem direção, perdida. Você era o lago, que me invadia sem ao menos pedir permissão. As pedras, nesse caso, seriam todos os obstáculos e pessoas que existem entre nós. Sou indiferente em relação a ti, tua presença não me bagunça mais, mas puta que pariu, é você me dirigir novamente a palavra, alguém vir falar de ti, teu olhar se chocar com o meu.. e tudo volta. E eu, que já estava chegando ao ponto dez, volto para a estaca zero. Juro que queria saber a causa, o motivo, a razão disso tudo acontecer.
Somos o tipo de pessoa que jamais daria certo juntos, afinal, nem tentar foi o suficiente. Você é sentimento e eu sou a razão, você é alvorada e eu sou crepúsculo, você é tudo zen e eu eu vivo na correria. Sempre tive preguiça de coisas certinhas, mas contigo eu me agito. Você é a minha forma masculina e, ao mesmo, todo do avesso. Como disse, sou razão e entendo isso perfeitamente, mas o cérebro não. Ele falha, buga, dá erro e reinicia sempre do mesmo ponto, do ponto Você.
Explica pra ele que já deu/acabou/já era/sem chance, por favor, ele insiste em não me ouvir.

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