Quando tinha uns sete ou oito anos, lembro de ter tido
('ter tido' existe, gente?) uma queimadura de segunda grau em todo o braço direito. Eu estava no meio de uma das minhas crises de bronquite e minha mãe deixou uma chaleira com eucalipto no quarto, para deixar o ambiente com um cheiro agradável, melhorar a umidade e coisas desse tipo. Eu estava brincando na cama com minha irmã e minha prima e eis que minha irmã faz um movimento bruco, me derrubando. Cai com o pé na chaleira, a puxando para baixo e fazendo com que todo o líquido de espalhasse pelo chão e deixasse meu corpo em brasa. Me lembro até da roupa que estava usando: blusa de moletom verde água e short preto. O primeiro lugar que aquele líquido fervente pegou foi meu braço. Eu senti uma dor absurda, mas me mantive calada. Minha irmã tentou me pegar, acabou queimando a mão e desistiu. Eu não conseguia reagir e levantar, até hoje, eu não sei reagir em momentos como este. Minha prima começou a gritar e meus pais atravessaram o corredor ao nosso encontro, minha mãe super brava por estar perdendo uma parte da novela e meu pai super bravo por ela ter gritado, ele é como eu e odeia barulho. Até que eles abriram a porta... E lá esta eu, deitada, queimando. Imediatamente papai me tirou de lá e minha mãe tirou meu moletom, me colocou uma blusa fresquinha e foi pegando um pano desses de amarrar chupeta limpo
(me julguem, mas uso esses paninhos até hoje, é meu objeto transicional) e colocou sobre meu braço enquanto meu pai ia ligando o carro. Não lembro do trajeto, só sei que sentia muita dor e permanecia calada. No hospital, tomei algumas injeções e o motivo de ter tomado eu não me recordo. Me fizeram um curativo e eu fui liberada. Quando cheguei em casa, minha prima dormia e minha irmã chorava.
COMO ASSIM? Eu perdi metade da pele
(guardo a cicatriz da parte mais queimada até hoje, com o tempo ela foi igualando a cor da minha pele, mas ainda é existente) e ela que só queimou a mão com o vapor estar a chorar?
Os anos passaram. Nunca me queimei novamente, mas continuo com o mesmo hábito: entalar o choro. Eu nunca choro, eu não sei a razão.
Tem algo no meu ser que bloqueia as lágrimas. Muitas vezes tô a ponto de explodir de dor de cabeça justamente por ter vontade de chorar, mas não sai nada, nadinha. O máximo que acontece é: meus olhos ficam marejados e logo em seguida, secam.
Perdi a conta das vezes que desejei chorar, para lavar a alma sabe? Como se as lágrimas fossem esvair todo o aperto que sentia no coração. Fracassei na missão em todas essas vezes.
Hoje, um pouco mais madura, entendo o motivo da minha irmã ter quase morrido de chorar no dia da minha queimadura.
Cada pessoa sente a dor de um jeito. Eu sinto a minha escrevendo.
Talvez, eu chore palavras.
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